quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sentimentos humanos, mercadorias compradas

           Lendo um pouco um livro sobre linguagem da propaganda, de Vestergaard e Shroder (2004; p. 266), uma consideração me chamou bastante a atenção e me inquietou. Referia-se aos efeitos da propaganda, que segundo os autores, são "uma consequência do desvirtuamento das relações e sentimentos humanos, que ela torna dependentes de mercadorias compradas." Assim, segundo os mesmos, ao vincular as relações e sentimentos humanos à mercadorias, afeta-se a espontaneidade do indivíduo.
           Fiquei um tempo pensando nesse aspecto e comecei a mergulhar na amplitude disso tudo. Ao lidar com emoções, a propaganda faz muito mais do que convencer um potencial consumidor anônimo. Ela cria mundos incríveis e perfeitos, onde nós, embora quiséssemos muito, nunca poderíamos viver. A publicidade têm imposto padrões inatingíveis, sejam de consumo, estéticos, de personalidade ou de vida, para atingir emocionalmente o consumidor. Então, estuda-se o público-alvo, suas características, mudanças e tendências, compreendendo suas ações, para atingi-lo de forma eficaz. Além disso, a publicidade utiliza diversas outras técnicas para obter melhores resultados.
            No entanto, não enxergo, de todo, cruel a forma de agir da propaganda. Nem poderia fazê-lo, até mesmo por ser publicitária e acreditar na execução ética da minha profissão. Não considero cruel, no que diz respeito ao uso de técnicas e no conhecimento do consumidor como todo para atingi-lo melhor. Isso é totalmente pertinente e lógico.
         O que acredito ser injusto é utilizar as técnicas de forma indiscriminada e antiética, sem pensar a partir do ponto de vista de quem está recebendo a mensagem publicitária. O problema não é atingir o consumidor, mas provocar nele a busca incansável por um padrão de vida impossível a ele, a ponto de endividar-se ou sentir-se inferior por não conseguir alcançá-lo. Ou levar crianças, jovens e adultos a tentarem atingir padrões de beleza, que nem mesmo os próprios modelos publicitários conseguem naturalmente, mas somente recorrendo a ferramentas computadorizadas. Isso, sim,  é cruel. O resultado disso é a criação de uma sociedade doente, frustrada e com indivíduos psicologicamente afetados.
          A publicidade é uma ferramenta muito importante, ao levar para o consumidor o conhecimento de produtos e serviços e facilitando a livre concorrência entre empresas. No entanto, é necessário agir com ética, considerando que o público a ser atingido é humano e movido por sentimentos e relações. Esses últimos, ao serem afetados de maneira imprudente, trarão danos,muitas vezes, irreparáveis aos indivíduos e à sociedade, consequentemente.

   

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